O PÁSSARO EMBAIXO DO ARBUSTOO recipiente de alpiste me proporcionava momentos de muita alegria, pois várias espécies de passarinhos vinham se alimentar ali. Geralmente eu contava quinze diferentes espécies em um único dia.
Certa manhã, enquanto observava meus amigos emplumados, testemunhei algo bastante incomum. Três  melros (ou graúnas) chegaram juntos ao quintal e voaram para debaixo de um arbusto. Um dos pássaros permaneceu meio escondido sob a árvore, enquanto os outros saltitaram em direção ao recipiente de comida. As duas avezinhas começaram a ciscar e bater as asas freneticamente, esparramando alpiste e frutinhas por todos os lados. Achei que o propósito da algazarra era afastar os outros pássaros, e fiquei um tanto desgostosa com a ganância deles.
Os três pássaros voltaram no dia seguinte, e a cena se repetiu.
Estes melros são uns doidos, pensei. Há comida suficiente para todos; não é preciso espantar ninguém. Vou dar um jeito neles.
No dia seguinte, armada com uma pistola d'água, pronta para dar-lhes um banho, esperei pelos glutões. Foi então que percebi algo curioso. Acho que o jeito de eles chegarem ao quintal me fez parar e avaliar a situação. Os três voavam em alinhamento perfeito, iguais a aviões-caça, com as pontas das asas se tocando. Sempre que aterrissavam, um deles se escondia sob o arbusto enquanto os outros iam para o recipiente de comida. Assim que começaram a ciscar e bater as asas, fui buscar meu binóculo, pois queria observar mais de perto aquele comportamento estranho.
Da janela da cozinha, descobri alguns fatos espantosos. O melro debaixo do arbusto era cego! Ele possuía apenas um olho. Ao passo que ele girava aqui e ali, notei que o olho estava coberto por uma membrana. Os outros estavam ciscando a comida para fora do recipiente e pelo chão, para que o companheiro cego se alimentasse! Quando se deram por satisfeitos, os dois pássaros-guia voaram gentilmente contra o amigo cego gorjeando sem parar e ajudaram-no a voar, mantendo sempre as asas em contato.
Enquanto desapareciam de vista, senti-me humilhada ao constatar minha própria cegueira. As lágrimas me vieram aos olhos ao perceber o amor e carinho que havia testemunhado. Naquele momento prometi que estenderia minhas asas e tocaria outras pessoas ao meu redor, tendo o cuidado de exibir o mesmo gesto altruísta, com a esperança de incentivar alguém acanhado a voar!               

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